A laicidade não se resume à ausência de religião estatal. Várias dezenas de constituições no mundo mencionam um princípio de separação ou de neutralidade religiosa, mas o funcionamento real desses regimes varia a ponto de tornar qualquer contagem definitiva impossível.
A dificuldade reside em um problema de categorização jurídica: um Estado pode se declarar laico em sua constituição enquanto financia cultos, impõe um ensino religioso ou restringe certas práticas em nome da ordem pública.
Laicidade constitucional e regulação de segurança: o caso da África Ocidental
Observamos há alguns anos uma mutação do conceito de laicidade em vários Estados da África Ocidental. O caso do Burkina Faso ilustra um deslizamento notável: uma nova lei sobre as liberdades religiosas foi adotada por unanimidade pelos deputados da Assembleia Legislativa de Transição. O objetivo declarado é ser mais rigoroso na prática religiosa dentro de um Estado laico confrontado ao terrorismo.
Esse precedente merece atenção. A laicidade se torna um instrumento de regulação de segurança das religiões, não apenas um quadro de neutralidade. A separação Estado-cultos não visa mais apenas proteger a liberdade de consciência, mas sim enquadrar práticas consideradas desestabilizadoras para a segurança nacional.
Essa abordagem se afasta do modelo clássico de separação herdado da lei francesa de 1905. Ela levanta uma questão técnica que as classificações habituais não resolvem: um Estado que restringe o exercício religioso em nome da laicidade continua sendo laico no sentido liberal do termo, ou transita para um controle estatal do fato religioso? Determinar quantos países laicos no mundo atendem a um ou outro desses modelos supõe, primeiro, resolver esse critério.

Separação formal contra neutralidade efetiva: grade de leitura técnica
O direito constitucional comparado distingue, no mínimo, três configurações que se reclamam todas da laicidade, mas funcionam de maneira diferente.
- Separação estrita: o Estado não financia nenhum culto, não reconhece nenhuma religião e limita a expressão religiosa à esfera privada. A França após 1905 é o modelo mais citado, com a lei de separação das Igrejas e do Estado.
- Neutralidade cooperativa: o Estado não professa nenhuma religião oficial, mas colabora com os cultos (financiamento de capelanias, concordatas locais, ensino religioso opcional). A Alemanha, a Bélgica ou a Suíça, dependendo dos cantões, se enquadram nesse esquema.
- Laicidade proclamada, prática ambígua: a constituição menciona a laicidade, mas o direito de família, o código penal ou o sistema educacional integram normas de origem religiosa. Vários Estados da África subsaariana e da Ásia Central entram nessa categoria.
O erro frequente nas classificações consiste em somar todas as constituições que mencionam a palavra “laico” ou “secular” sem verificar a prática efetiva. A menção constitucional não garante a neutralidade real do Estado.
Igrejas estatais e culturas secularizadas: o paradoxo escandinavo
Os países escandinavos complicam qualquer tentativa de classificação por exemplaridade. A Dinamarca, a Noruega e a Islândia mantêm uma Igreja ligada ao Estado ou um legado institucional religioso. A Suécia oficialmente encerrou o patrocínio estatal de sua Igreja em 2000. Esses quatro países garantem a liberdade de religião por meio de sua constituição.
No entanto, sua população apresenta uma das taxas de prática religiosa mais baixas do mundo. A secularização da sociedade é claramente mais avançada do que em Estados formalmente laicos. Um país sem separação jurídica estrita pode ser mais secular do que um país constitucionalmente laico.
Observamos que a presença de uma Igreja estatal não impediu a adoção de legislações progressistas sobre os direitos individuais. Por outro lado, alguns Estados que se declaram laicos mantêm restrições à liberdade de consciência ou à apostasia.
França e repúblicas laicas: especificidades do modelo de separação
A França continua sendo a referência histórica em matéria de separação estrita entre Estado e cultos. A lei de 1905 constitui a base jurídica: a República não reconhece, não remunera nem subvenciona nenhum culto. Esse princípio foi consolidado por sua inscrição na Constituição da V República.
O modelo francês se distingue pela proibição de sinais religiosos em certos espaços públicos (escolas, serviço público). Essa abordagem não tem equivalente exato em outras democracias ocidentais, onde a liberdade de expressão religiosa no espaço público é geralmente protegida.
Outras repúblicas inscreveram a laicidade em seu texto fundamental: o México, a Turquia, a Índia, Portugal ou o Brasil. Cada uma a aplica de acordo com sua história política e sua relação com as instituições religiosas. A Turquia, por exemplo, desenvolveu um aparato estatal de gestão dos cultos (a Diyanet) que controla o islamismo sunita enquanto se declara laica.

Por que nenhuma classificação mundial da laicidade faz consenso
Três obstáculos técnicos impedem a elaboração de um ranking confiável dos países laicos mais exemplares.
O primeiro é a ausência de uma definição jurídica internacional unificada. A laicidade francesa, o secularismo anglo-saxão e a laicidad latino-americana não cobrem as mesmas realidades normativas. Comparar a França e a Índia sob um mesmo critério supõe ajustes metodológicos que a maioria das classificações não detalha.
O segundo obstáculo diz respeito à distinção entre o direito positivo e a prática. Um Estado pode exibir uma constituição impecável e tolerar discriminações religiosas sistêmicas, ou financiar cultos por meio de mecanismos indiretos (vantagens fiscais, subsídios culturais).
O terceiro diz respeito à evolução rápida das legislações nacionais. A tendência observada no Burkina Faso, onde a laicidade justifica um enquadramento reforçado das práticas religiosas, modifica a cartografia clássica. Estados considerados laicos há dez anos podem hoje pender para um modelo de controle estatal do religioso.
A exemplaridade, portanto, depende do critério adotado: liberdade de consciência máxima, neutralidade de financiamento, igualdade de tratamento entre cultos ou ausência de qualquer referência religiosa no direito civil. Nenhum Estado marca todas essas opções simultaneamente. A França falha na Alsácia-Lorena e seu concordato local, a Suécia em sua antiga Igreja estatal, a Índia nas leis pessoais comunitárias.



